Da Prússia
ao Paraná
Valentin Klamas · Rakowitz, Marienwerder · Chegada ao Brasil, 1876
Um pouco sobre a história da Prússia e da Pomerânia
A Prússia foi uma região histórica que se estendia desde o norte da Alemanha até a Lituânia. O nome Prússia teve sua origem nos prussianos, um povo báltico que habitava a área entre as lagunas da Letônia e o Rio Vístula — no que é hoje o norte da Polônia.
No século XIII, os prussianos, pagãos, foram paulatinamente submetidos pela Ordem Teutônica, convidada pelo duque polonês Conrado de Mazóvia a cristianizar e pacificar a região além Vístula. Aos cavaleiros foi assegurada a posse das terras a serem conquistadas, garantia obtida do Papa Gregório IX em 1234. Em fins do século XIII, o que restava dos prussianos estava sujeito aos alemães.
Antes do término do século XVII, a língua prussiana havia se extinguido. A cultura dos prussianos foi germanizada — ou polonizada, a depender da parte da Prússia que habitavam.
O território da Ordem Teutônica no século XIV — Das deutsche Ordensland im 14. Jahrhundert. Marienwerder (Kwidzyn), cidade próxima a Rakowitz, aparece marcada no centro-sul do mapa.
A região foi se desenvolvendo e rumo a oeste até que no século XIX Otto von Bismarck conseguiu unir os povos germânicos em um só estado, criando o estado Alemão. Parte da Prússia foi perdida após a Segunda Guerra Mundial para a Polônia.
Em 1876 chega a Curitiba Valentin Klamas, sua mãe Barbara e seu irmão Josef Klamas, proveniente de Rakowitz, Marienwerder, Prússia Ocidental — a cerca de 80 km ao sul de Danzig.
Rakowitz — a origem da família no Velho Mundo
Rakowitz — hoje conhecida como Piaseczno, na Polônia — era uma pequena localidade situada na região de Marienwerder, Prússia Ocidental, a cerca de 80 quilômetros ao sul de Danzig (atual Gdańsk). Era uma região de planícies agrícolas atravessadas pelo Rio Vístula, de tradição germânica arraigada e presença luterana marcante.
Rakowitz (hoje Piaseczno, gmina Gniew) localiza-se a cerca de 80 km ao sul de Danzig, na margem do Vístula — região de Marienwerder, hoje no norte da Polônia.
Vista aérea de Rakowitz (hoje Piaseczno, gmina Gniew) — a localidade e sua igreja medieval no meio das planícies do antigo Marienwerder. É desta aldeia que partiram Valentin Klamas, sua mãe Barbara e seu irmão Josef em 1876.
A ocupação de terra no sul do Brasil
Pela Bula Inter Coetera do Papa Alexandre VI, em 1493, as terras descobertas a partir de um meridiano distante 100 léguas a ocidente das ilhas de Açores e Cabo Verde pertenceriam à Espanha. O Tratado de Tordesilhas, firmado em 1494, ajustou essa linha para 370 léguas a oeste de Cabo Verde, cabendo a Portugal as terras a leste. Com isso, o sul do Brasil pertencia, na prática, à Espanha — situação que durou até o avanço dos Bandeirantes paulistas e o Tratado de Madri de 1750.
Os motivos que incentivaram a imigração
Até o início do século XVIII, somente os portugueses eram autorizados a se fixarem na Colônia. Após a chegada da Corte em 1808, foi realizada uma política imigratória apoiada por D. João com legislação específica. Grosso modo, os principais motivos foram:
- Do lado brasileiro: a ocupação e colonização do território, a necessidade de suprir a mão de obra escrava e fornecer trabalhadores para a construção de grandes obras públicas.
- Do lado europeu — principalmente da Alemanha, Itália e Polônia —: crises econômicas, agrárias e constantes guerras que formavam um grande contingente de emigrantes.
No caso específico da Província do Paraná, emancipada somente em 1853, foram concedidos estímulos à posse de terras em conjunto com o governo imperial. O primeiro presidente da Província, Zacarias de Góes e Vasconcelos (1853–1855), via como problemática inicial da administração "povoar esse território de duzentos mil quilômetros quadrados" e sancionou leis para promover a imigração de estrangeiros.
O Linismo e a colonização do Paraná
Mas foi na gestão de Adolfo Lamenha Lins que a colonização do Paraná ganhou um grande impulso — com um novo sistema que se diferenciava dos modelos já organizados na Província e no restante do Brasil. Seus princípios baseavam-se em:
- Dizer a verdade ao imigrante sobre a nova pátria que vem procurar, em vez de poéticas descrições e exageradas promessas.
- Facilitar-lhe o transporte, evitando que o imigrante sofra privações e mau tratamento até o término de sua viagem.
- Dividir bons lotes de terras nas vizinhanças dos centros populosos e fazê-los comunicáveis por estradas de rodagem.
- Fazer o colono aderir à terra que habita, pelo direito de propriedade, facilitando-lhe a aquisição dela.
- Evitar que o imigrante, ao chegar, sofra vexames que lhe abatam o ânimo nos primeiros passos em regiões desconhecidas.
- Estabelecer bem o colono, com todos os favores prometidos, e depois libertá-lo de qualquer tutela, deixando-o sobre si e entregue ao desenvolvimento de sua própria iniciativa.
A esse sistema deu-se o nome de Linismo. No relativamente curto período de sua gestão frente ao governo da Província do Paraná, Lamenha Lins fundou as colônias de Santa Cândida, Orleans, Dom Pedro, Dom Augusto, Tomás Coelho, Lamenha Grande, Lamenha Pequena, Santo Inácio e Riviere — criando o "cinturão verde" para o abastecimento de Curitiba. Foi neste contexto que Valentin Klamas e sua família chegaram ao Brasil em 1876.
A chegada ao Paraná
Em dezembro de 1876 chega a Paranaguá, via Rio de Janeiro, o navio Kepler, procedente do porto de Antuérpia, trazendo a bordo Valentin Klamas, 19 anos, agricultor, com sua mãe Bárbara Klamas (50) e seu irmão Josef Klamas (16). Todos cidadãos alemães católicos, procedentes de Rakowitz, província de Marienwerder, Prússia Ocidental, com destino à Curitiba.
Lista de passageiros do Navio Kepler, 11.12.1876 — os nomes de Barbara Klamas (nº 34), Josef (nº 35) e Valentin (nº 36) são visíveis, com origem em Rakowitz e destino Curitiba. Fonte: Registros de entrada de estrangeiros no Brasil, Arquivo Nacional do Rio de Janeiro.
A partir de Paranaguá, Valentin e sua família subiram a serra em direção à Curitiba e se estabeleceram provisoriamente na Colônia Abranches, com outros colonos poloneses. Apesar de suas cidadanias constarem como alemã, acredita-se que fossem de etnia polonesa — hipótese reforçada pela tradição oral e pela integração imediata junto à comunidade polonesa de Curitiba. No final do século XVIII ocorreram as Partições da Polônia, quando esta foi dividida entre o Reino da Prússia, o Império Russo e o Império Austro-Húngaro, ficando Rakowitz pertencendo à Prússia.
Estatística das Colônias de Curitiba, 1887 — Valentin Klamas (nº 8), agricultor, lote nº 8 da Colônia Rivière, estabelecido em 31.12.1877. Esposa Lúcia Klamas, 26 anos; filhos Leocádia (6), Júlio (2) e Francisco (1). Culturas: Centeio, Milho, Feijão, Batata, Ervilha. Possui casa de madeira, um paiol, uma estrebaria, dois cavalos e uma vaca.
Localização da Colônia Rivière (em vermelho) na região metropolitana de Curitiba — onde Valentin Klamas estabeleceu o lote nº 8 em 31 de dezembro de 1877.
Aos 07.10.1889, Valentin Klamas apresentou-se em Curitiba para prestar o juramento de fidelidade à Constituição e leis do Império Brasileiro, reconhecendo assim o Brasil como sua pátria. Em 28.06.1898, transferiu o lote na Colônia Rivière para João Maczonek — provavelmente a ocasião em que se mudou com a família para a Colônia Thomaz Coelho, em Araucária.