Lorenz Heinrich Petersen — Küürvaal (Baleia-jubarte) · Litografia · Tallinn, 1851 · Impressor: Friedrich Wilhelm Macdonald · Inscrição em estoniano arcaico: «Pikka näpputegga wallasnalla» («grande baleia exibida ao público») · Assinatura manuscrita: Johan Klamas
O encalhe de uma jubarte em 1851 e a transformação de uma família de ilhéus
Em abril de 1851, um evento singular interrompeu a rotina difícil dos ilhéus de Rammu e inscreveu para sempre o nome Klamas na memória do arquipélago do Golfo da Finlândia. No dia 9 de abril, após uma tempestade no Mar Báltico, uma baleia-jubarte (Megaptera novaeangliae) encalhou morta na pequena ilhota de Allu, adjacente a Rammu. O animal media aproximadamente 9,68 metros de comprimento e pesava mais de dez toneladas.
Segundo a tradição oral e registros paroquiais de Jõelähtme, membros da família Klamas foram os primeiros a avistar o animal. Como residentes da ilha, cabia às famílias locais o direito sobre recursos que chegassem à costa. Organizou-se então o resgate e transporte da carcaça até Tallinn, utilizando dois barcos a vela. No porto, a baleia foi exibida ao público mediante pagamento, tornando-se rapidamente um evento de grande interesse científico e popular.
Os habitantes tentaram também extrair gordura do animal para produção de óleo de baleia. Contudo, relatos da época indicam que o odor resultante era extremamente intenso, chegando a ser percebido nas ilhas vizinhas, o que acabou por limitar essa prática.
Posteriormente, a carcaça foi adquirida pela Academia de Ciências de São Petersburgo por 850 rublos — valor excepcional para a época e para uma comunidade daquelas proporções. A transação contou com a intermediação do naturalista Karl Ernst von Baer, figura central da ciência russa do século XIX e pioneiro da embriologia moderna. O espécime foi preparado sob supervisão científica, transportado e montado em São Petersburgo para fins de estudo osteológico e educação pública. Fontes estonianas indicam que o esqueleto permanece preservado até hoje, possivelmente no Museu Zoológico do Instituto Zoológico da Academia Russa de Ciências.
O impacto econômico foi profundo e imediato. A quantia recebida foi distribuída entre as famílias da ilha, com destaque para os Klamas e os Lambot, que lideraram toda a operação. Com esses recursos, os habitantes adquiriram redes de pesca modernas e embarcações maiores, passando a operar em águas mais distantes e a ampliar o comércio com Tallinn e Helsinque. Houve também melhorias nas habitações — construção de casas de madeira mais robustas sobre fundações de pedra — e maior acesso à educação para as gerações seguintes.
O episódio tornou-se parte permanente da identidade da ilha. Na literatura de August Mälk, escritor estoniano que retratou a vida das comunidades costeiras, o evento é interpretado como um raro momento em que o mar, normalmente hostil e avaro, trouxe prosperidade inesperada. A baleia alterou a hierarquia social regional e gerou respeito — e inveja — das comunidades vizinhas, que passaram a apelidar os habitantes de Rammu de «caçadores de baleia», apesar de não terem efetivamente caçado o animal.
O acontecimento foi registrado em litografias científicas. Destaca-se a obra de Lorenz Heinrich Petersen, produzida em Tallinn e impressa por Friedrich Wilhelm Macdonald. Algumas gravuras apresentam inscrições em estoniano arcaico — «Pikka näpputegga wallasnalla», «grande baleia exibida ao público» —, além de anotações em latim e russo científico. Em certos exemplares, aparece a assinatura manuscrita Johan Klamas, sugerindo ligação direta com a família que organizou o resgate, embora essa associação não esteja formalmente comprovada.